Saúde recomenda vacina contra HPV para crianças a partir dos 2 anos
Publicado em 15/09/2026 às 11:00


O Ministério da Saúde passou a recomendar a vacinação contra o HPV para crianças a partir dos 2 anos de idade que sofreram violência sexual. A nova orientação amplia a estratégia de prevenção da infecção pelo vírus e altera a recomendação adotada no Brasil desde 2023, quando a imunização nesses casos era indicada para mulheres e homens de 9 a 45 anos.

A revisão do protocolo ocorre em um cenário de crescimento dos registros de violência sexual contra crianças e adolescentes. Dados do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que as notificações de abuso na primeira infância, entre 0 e 4 anos, passaram de 1.671, em 2014, para 7.845, em 2024. O número representa um aumento de mais de quatro vezes em uma década.

A dimensão do problema também aparece nos registros mais recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Em 2025, foram registradas 59.887 notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes em todo o país.

A ampliação da vacinação busca responder a esse cenário ao incorporar crianças mais novas à estratégia de prevenção do HPV após episódios de abuso. A infecção pelo vírus está associada a diferentes tipos de câncer, como os de colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e orofaringe, e a vacinação é uma das principais formas de prevenção.

A presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi, avalia que a ampliação da vacinação também responde ao aumento dos casos de estupro de vulnerável registrados nos últimos anos. Segundo ela, o crescimento das ocorrências envolvendo crianças pequenas reforçou a necessidade de rever a faixa etária para a imunização. "Estamos tendo um número muito significativo e crescente nos últimos anos de violação sexual contra crianças pequenas", afirma.

Mônica ressalta que a vacina contra o HPV não funciona como tratamento após o abuso, ou seja, não tem efeito de profilaxia pós-exposição nem elimina uma eventual infecção já adquirida. O imunizante protege contra os tipos do vírus aos quais a criança ainda não foi exposta e pode reduzir o risco de infecções futuras.

A especialista destaca ainda que a possibilidade de novos episódios de violência é um dos fatores considerados na estratégia de proteção. "Infelizmente, as estatísticas mostram que a reexposição é uma realidade e a violência costuma ser recorrente. O abusador geralmente é conhecido, está dentro de casa, na família ou na vizinhança", explica Mônica.

Risco de exposição
O médico infectologista Henrique Considero avalia adequada e importante a ampliação da vacinação para essa faixa etária, diante do risco de exposição ao HPV entre crianças vítimas de violência sexual. Para ele, a possibilidade de novos episódios de violência reforça a necessidade de antecipar a proteção. "Essas crianças apresentam maior risco de exposição ao HPV, inclusive porque a violência pode ser recorrente, e esperar até os 9 anos deixaria uma janela de vulnerabilidade", destaca.

Para o especialista e mestre em Psicologia Social Luis Rodrigues, a medida representa um avanço na proteção à saúde, mas não enfrenta as demais formas de exposição e vulnerabilidade a que crianças e adolescentes estão sujeitos. Segundo ele, a discussão precisa ir além da prevenção de doenças e considerar as condições que favorecem situações de violência. "A questão a ser debatida é sobre evitar todo tipo de exposição a que nossas crianças estão sujeitas", enfatiza.

Ainda há dúvidas sobre a duração da proteção conferida pela vacina quando aplicada antes dos 9 anos. Por isso, a dose administrada nessa faixa etária não será considerada parte do esquema básico de vacinação. Ao atingir a idade prevista no calendário regular, entre 9 e 45 anos, a criança deverá ser imunizada novamente, conforme as recomendações vigentes. Com informações do Correio Braziliense.

Veja Também

Prefeitura de Caruaru intensifica vacinação contra HPV com ação especial neste sábado (29)

HPV entre jovens diminuiu após prevalência de vacinação, diz pesquisa

Saúde recomenda vacina contra HPV para crianças a partir dos 2 anos

Secretaria de Saúde de Caruaru promove vacinação na Via Parque e no Shopping Difusora