Os sobressaltos da democracia e o câncer da corrupção endêmica
Publicado em 19/03/2026 às 10:23


A história recente da democracia brasileira é um roteiro marcado por avanços institucionais e, simultaneamente, por sobressaltos éticos que testam a resiliência do Estado de Direito. Desde a redemocratização, o país não conseguiu se livrar de um ciclo vicioso no qual a corrupção não aparece como um desvio pontual, mas como uma ferramenta de governabilidade e manutenção de poder. Esse fenômeno, que pode ser classificado como endêmico, manifesta-se em diferentes faces: do fisiologismo rudimentar à sofisticação das engrenagens financeiras contemporâneas.


O primeiro grande trauma da Nova República ocorreu com a era Collor. O esquema liderado por PC Farias revelou uma estrutura de propinas que culminou no impeachment de 1992, demonstrando que a jovem democracia possuía mecanismos de defesa, mas que o sistema político ainda era permeável ao patrimonialismo. Anos depois, o cenário político foi abalado pelo Mensalão. O esquema de compra de votos no Congresso Nacional feriu de morte a independência entre os Poderes, transformando o apoio parlamentar em mercadoria e expondo como um projeto de poder poderia subjugar a ética republicana.


A sofisticação do crime institucionalizado atingiu seu ápice com o Petrolão, revelado pela Operação Lava Jato. O saque bilionário à Petrobras, articulado entre empreiteiras, agentes públicos e partidos, não apenas drenou recursos da maior estatal do país, como também gerou uma crise econômica e política sem precedentes. No entanto, o que parecia ser um ponto de virada institucional resultou, anos depois, na anulação de sentenças e, pior ainda, na revisão de mecanismos de controle que terminaram por reconduzir o Brasil a uma estagnação preocupante, refletida na queda constante do país nos índices globais de percepção da corrupção.


Atualmente, o desafio à integridade democrática assume contornos mais complexos e silenciosos, exemplificados pelas recentes e graves controvérsias envolvendo o Banco Master. O caso levanta suspeitas sobre uma nova fronteira de influência: a captura de setores do Judiciário e de órgãos reguladores por interesses financeiros. Essa promiscuidade entre o mercado financeiro e altos escalões institucionais representa um risco sistêmico, pois compromete a última instância de justiça do cidadão.


Portanto, o Brasil vive hoje um paradoxo. Enquanto as instituições parecem funcionar na superfície, sua estrutura interna permanece corroída pela falta de transparência e pelo avanço do crime organizado sobre o Estado. A corrupção endêmica, que atravessa episódios de Collor ao Banco Master, revela que a democracia brasileira não morre de um ataque súbito, mas definha por meio de sobressaltos éticos que minam a confiança popular e impedem o desenvolvimento nacional. Sem uma reforma profunda que priorize a transparência e a punição efetiva, o país continuará refém de suas próprias elites.


Fernando Dueire

Senador da República por Pernambuco

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