Há cerca de três anos, durante uma viagem à China, visitei uma das fábricas da Gree Electric Appliances, a maior fabricante de aparelhos de ar-condicionado do mundo. Fui conhecer uma indústria e voltei refletindo sobre o futuro das nações. Mais do que a dimensão da estrutura e a eficiência da operação, impressionou-me perceber que os chineses não estavam apenas fabricando aparelhos de ar-condicionado. Estavam produzindo conhecimento, tecnologia e, sobretudo, futuro.
Foi ali que compreendi que a grande disputa econômica do século XXI não seria travada pelo petróleo ou pelos recursos naturais. A verdadeira guerra do nosso tempo é pela capacidade de produzir conhecimento, transformá-lo em inovação e protegê-lo por meio da propriedade intelectual. Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), a China registra cerca de 1,8 milhão de pedidos de patentes por ano. Os Estados Unidos registram aproximadamente 500 mil. O Brasil, pouco mais de 26 mil. Mais impressionante ainda é o número de patentes em vigor: cinco milhões na China, 3,5 milhões nos Estados Unidos e cerca de 400 mil no Brasil.
Esses números não representam apenas documentos arquivados. Eles representam medicamentos, softwares, inteligência artificial e as tecnologias que moldarão a economia mundial nas próximas décadas. Existe, porém, um dado ainda mais revelador. A Gree Electric Appliances acumula mais de 72 mil pedidos de patentes ao longo de sua história, quase três vezes mais do que o Brasil inteiro registra em um ano. Essa comparação deveria provocar uma pergunta incômoda: por que um país continental, uma das maiores economias do planeta e dono de extraordinária capacidade criativa ainda registra tão poucas patentes? A resposta talvez diga mais sobre o nosso modelo de desenvolvimento do que gostaríamos de admitir.
O problema do Brasil nunca foi falta de inteligência. Talvez nos tenha faltado uma visão estratégica de longo prazo. Enquanto a China decidiu investir pesadamente em educação, pesquisa, ciência e tecnologia, nós continuamos, muitas vezes, prisioneiros das urgências do presente, adiando investimentos capazes de definir o futuro.
Talvez esteja aí uma das explicações para o fato de os Estados Unidos continuarem sendo a maior potência econômica do planeta e a China caminhar rapidamente para disputar essa liderança. Ambos compreenderam que conhecimento e inovação são os maiores geradores de riqueza do século XXI. Não por acaso, lideram a produção científica e os registros de patentes. Enquanto isso, o Brasil, apesar de sua dimensão econômica e de seu enorme potencial criativo, continua produzindo excelentes consumidores de tecnologia, mas ainda produz poucos proprietários de tecnologia.
Ao caminhar pela fábrica da Gree, lembrei-me de uma frase que costumo repetir: criatividade cria, inovação aperfeiçoa, mas é a capacidade de transformar conhecimento em valor que gera prosperidade. Talvez seja justamente essa a diferença entre as nações que lideram a economia mundial e aquelas que permanecem dependentes das tecnologias produzidas pelos outros. Hoje, olhando os números da China, dos Estados Unidos e do Brasil, percebo que o mais valioso naquela fábrica não eram as máquinas ou os laboratórios, mas as ideias.
A China compreendeu isso. Os Estados Unidos jamais deixaram de compreender. O Brasil, entretanto, ainda parece dividido entre as urgências do presente e os desafios do futuro. Os chineses não estão fabricando apenas produtos. Estão fabricando futuro.
A pergunta que permanece é simples: o Brasil deseja continuar comprando o futuro ou finalmente pretende começar a fabricá-lo?
Por Inácio Feitosa
Advogado, escritor e diretor do Instituto IGEDUC.