Coluna da segunda-feira: Waldemar Borges e a política que deixa saudade
Publicado em 06/07/2026 às 00:01


A morte de Waldemar Borges, aos 67 anos, em decorrência de um câncer, encerra uma das trajetórias mais consistentes da política pernambucana das últimas quatro décadas. As homenagens prestadas por adversários e aliados, a decretação de luto oficial de três dias pelo Governo de Pernambuco e o reconhecimento praticamente unânime de sua atuação revelam algo cada vez mais raro na vida pública: o respeito construído pela coerência, e não apenas pelos cargos ocupados.

Em um cenário político marcado pela volatilidade partidária, pela polarização e pela ascensão de lideranças de ocasião, Waldemar representou uma geração que compreendia a política como instrumento de construção institucional. Seu percurso não foi moldado pelo improviso eleitoral, mas por uma militância iniciada ainda na juventude, durante a reorganização do movimento estudantil e comunitário no período final da ditadura militar.

Foi na Universidade Federal de Pernambuco que ajudou a reorganizar a juventude partidária, reunindo aqueles que defendiam a redemocratização do país. A partir dali, construiu uma carreira que atravessou diferentes níveis da administração pública sem romper uma característica que o acompanharia até o fim: a capacidade de dialogar sem abrir mão das próprias convicções.

Antes mesmo do primeiro mandato, participou dos governos de Miguel Arraes na Secretaria de Trabalho e Ação Social, experiência que consolidou sua visão sobre políticas públicas e desenvolvimento social. Em 1988, foi eleito vereador do Recife, cargo que ocuparia por quatro mandatos consecutivos. Tornou-se constituinte municipal, participou da elaboração da Lei Orgânica da capital e ajudou a incorporar mecanismos de participação popular e controle social que ainda hoje estruturam a administração pública recifense.

Na Câmara Municipal, exerceu tanto o papel de líder da oposição quanto o de presidente da Casa. Em tempos em que o debate político frequentemente se reduz ao confronto permanente, sua atuação lembrava que a firmeza não precisa ser incompatível com o respeito institucional.

Sua passagem pelo Executivo também foi marcante. Voltou ao governo Arraes na Secretaria de Projetos Especiais, comandou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Recife, presidiu a Emprel e, posteriormente, integrou o núcleo político de Eduardo Campos como secretário de Articulação Social. Nesse período, coordenou iniciativas importantes dentro do Pacto pela Vida e do Conselho Estadual de Desenvolvimento Social, aproximando políticas de segurança, assistência e inclusão social.

Na Assembleia Legislativa, onde permaneceu por quatro mandatos consecutivos, talvez tenha alcançado sua maior dimensão política. Foi líder dos governos Eduardo Campos, João Lyra Neto e Paulo Câmara, presidiu algumas das principais comissões permanentes da Casa — entre elas Constituição, Legislação e Justiça, Administração Pública e Educação — e tornou-se referência na condução de debates técnicos e na elaboração legislativa.

Sua força política nunca esteve associada ao discurso inflamado. Waldemar exercia influência pela capacidade de construir consensos, pelo domínio dos temas que discutia e pela credibilidade acumulada ao longo de décadas. Mesmo nos momentos de maior tensão política em Pernambuco, era frequentemente procurado para mediar conflitos e formular soluções.

Sua morte encerra uma biografia iniciada na luta pela democracia e consolidada em 32 anos de mandatos eletivos. Mas também provoca uma reflexão inevitável: Pernambuco perde não apenas um deputado estadual, mas um dos últimos representantes de uma geração que entendia a política como missão pública, e não como plataforma pessoal.

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