Pivô do caso de quebra de sigilo da fonte pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Raimundo Soares Cutrim (foto) está preso desde 17 de julho, por determinação do ministro Flávio Dino, que Cutrim classifica como “inimigo pessoal e político”.
Seis dias antes de ser preso, Cutrim, que foi secretário de Segurança Pública do Maranhão por duas vezes e deputado estadual por três mandatos, publicou um vídeo dizendo que recebeu avisos de “deputados dinistas” de que seria preso. Ele está hoje em prisão domiciliar.
A suspeita é de que ele tentou obstruir a Justiça no caso de investigação de um homicídio pelo qual foi condenado Gilbson Cutrim, filho de um primo distante do ex-secretário, porque o caso acabou envolvendo suspeitas acerca de Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Maranhão e sobrinho do governador do estado, Carlos Brandão, também adversário de Dino.
A história subiu para o STF por que o senador Weverton Rocha (PDT-MA), que tem foro por prerrogativa de função, também teria tentado interferir nas investigações, e o caso acabou sendo relatado por Dino, que não se declarou suspeito, assim como fez em outros diversos casos de potencial conflito de interesses desde que chegou ao Supremo.
“Deputados ‘dinistas'”
“Pois, agora fiquei sabendo que o ministro do Supremo Flávio Dino teria decretado minha prisão por uma suposta obstrução da investigação do caso. E de que forma eu fiquei sabendo? Por meio da corrente de boatos que os chamados deputados ‘dinistas’ espalham, criando onda de terror em meio a uma disputa eleitoral na qual eles se sentem perdidos”, diz Cutrim no vídeo, seguindo:
“Causa minha estranheza se isso for verdade, um mandado de prisão contra mim assinado por Flávio Dino, reconhecidamente inimigo meu, pessoal e político, dos tempos em que ele era governador e eu deputado estadual. Esses ‘dinistas’ que espalham esta ameaça são os mesmos que se fizeram portadores de recados, propondo troca de sentenças do mesmo ministro por redutos eleitorais de Colinas e Barreirinhas nas eleições municipais de 2024. Coisa grave que ele, em defesa de sua honra, deveria mandar apurar, e não fez. Estou aqui com as minhas verdades, muito delas incômodas para eles, que haverei de revelá-las tão logo isso se torne necessário.”
Defesa se manifesta
Os advogados de Cutrim publicaram uma nota na quarta-feira, 12, para destacar a rivalidade entre Dino e o ex-secretário de Segurança, na qual também chamam a atenção para esse vídeo.
“O cumprimento do mandado de busca e apreensão determinado pelo Ministro Alexandre de Moraes em 11 de agosto de 2026 não é o primeiro contra o Sr. Cutrim. Em 17 de julho de 2026, ele já havia sido alvo de medidas decretadas pelo Supremo Tribunal Federal, pelo Ministro Flávio Dino — quais sejam: busca e apreensão e prisão preventiva convertida em prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica, além de afastamento imediato do cargo de secretário de Estado e restrições equiparadas às do sistema penitenciário“, diz a defesa de Cutrim, destacando o vídeo:
“Esta não é a primeira operação contra o Sr. Cutrim, e o dado mais eloquente desta história foi dito por ele mesmo antes de qualquer diligência. Em vídeo público gravado em 11 de julho de 2026, dias antes das medidas, o Sr. Cutrim relatou que pessoas próximas ao Ministro Flávio Dino — parlamentares que ele denominou ‘dinistas’ — mandavam recados anunciando que ele seria preso, criando um verdadeiro clima de terror no meio da disputa eleitoral maranhense. Foi por essa corrente de boatos, e não por qualquer notificação oficial, que ele tomou conhecimento da iminência das ações judiciais. Naquele momento, o Sr. Cutrim manifestou publicamente sua surpresa e estranheza em ser processado por alguém que é seu reconhecidamente inimigo político pessoal, desde os tempos em que Flávio Dino era governador do Maranhão e ele, deputado estadual.”
Fonte?
Os advogados destacam que a prisão preventiva foi convertida em domiciliar com tornozeleira eletrônica e que eles ficaram sabendo pela imprensa que Cutrim “foi identificado como fonte do jornalista Luís Pablo, em razão das reportagens que denunciaram o suposto uso irregular, por familiares do Ministro Flávio Dino, de viaturas do Tribunal de Justiça do Maranhão”.
“Tais denúncias, até onde se tem notícia, seguem sem qualquer apuração. Como os autos tramitam sob sigilo, não é dado à defesa confirmar nem infirmar o alegado; mas o princípio em jogo não depende dos autos: o sigilo da fonte é garantia expressa do art. 5º, inciso XIV, da Constituição Federal, e a medida instaura precedente que ameaça não apenas a imprensa, mas todo e qualquer cidadão que comunique fatos de interesse público a um jornalista”, protestam os advogados, destacando que há investigação sobre quem revelou uma suposta irregularidade, mas não sobre a irregularidade denunciada.
A defesa também comentou a movimentação de 100 mil reais, que foi interpretada pelos investigadores como um pagamento para o monitoramento da família de Dino:
“Os elementos que vêm sendo divulgados acerca de movimentações financeiras — igualmente extraídos das matérias jornalísticas — dizem respeito, segundo o que se noticia, à relação entre o jornalista e o seu advogado, pessoa sem qualquer vínculo com o Sr. Raimundo Cutrim. Nenhum valor é imputado ao Sr. Cutrim em qualquer das decisões cujo teor veio a público, nem a ele nem à sua defesa é atribuída participação nas transações mencionadas. Eventuais esclarecimentos serão prestados oportunamente, conforme o acesso pleno aos autos.“
Em entrevista ao Papo Antagonista, Luís Pablo disse que o dinheiro se tratou de um empréstimo de um advogado amigo seu, que já teria sido pago.
Dino se defende
Dino publicou mais uma nota sobre o caso nesta quinta-feira, 13. na qual lamentou não poder “participar cotidianamente de ‘apaixonados’ debates públicos”.
“Isso inclui suportar calado agressões e injustiças, assistir a distorções monumentais quanto a fatos, acompanhar perplexo a exposição de interpretações absurdas. Em outras funções podia me pronunciar abertamente, com mais frequência. Agora isso pode até acontecer, mas muito excepcionalmente. Faz parte do ônus do meu ofício. E assumo tal ônus com gosto, em face da responsabilidade com que exerço a jurisdição. De todo modo, a minha biografia e a minha atuação profissional, em 37 anos de serviço público, são a minha maior defesa”, diz a mensagem. Com informações de O Antagonista.